segunda-feira, 28 de março de 2011

COMUNHÃO REPARADORA NOS PRIMEIROS SÁBADOS

CINCO PRIMEIROS SÁBADOS

I – A DEVOÇÃO DOS PRIMEIROS SÁBADOS

Na Aparição do dia 13 de Julho anunciou Nossa Senhora em Fátima: “Para impedir a guerra virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados”.

Esta última devoção veio pedi-la, aparecendo à Irmã Lúcia a 10-12-1925, em Pontevedra, Espanha. Disse então: “Olha, minha filha, o meu coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos me cravam com blasfémias e ingratidões. Tu, ao menos, procura consolar-me e diz que prome-to assistir na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação, a todos os que, no Primeiro Sábado de cinco meses seguidos, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e me fizerem companhia durante quinze minutos, meditando nos 15 mistérios do Rosário com o fim de me desagravar”.

Nª Senhora mostrou o seu Coração rodeado de espinhos, que significam os nossos pecados. Pediu que fizéssemos actos de desagravo para Lhos tirar, com a devoção reparadora dos cinco Primeiros Sábados. Em recompensa, promete-nos "todas as graças necessárias para a salvação”.

Jesus nos dois anos seguintes, 15 de Fevereiro de 1926 e 17 de Dezembro de 1927, insiste para que se propague esta devoção. Lúcia escreveu: “Da prática da devoção dos Primeiros Sábados, unida à consagração ao Imaculado Coração de Maria, depende a guerra ou a paz do mundo”.

II – CINCO, POR QUÊ?

São cinco os Primeiros Sábados por, segundo revelou Jesus, serem “cinco as espécies de ofensas e blasfémias proferidas contra o Imaculado Coração de Maria.

1. – As blasfémias contra a Imaculada Conceição, 2. – Contra a sua Virgindade ; 3. – Contra a Maternidade Divina, recusando ao mesmo tempo recebê-la como Mãe dos homens ; 4. – Os que procuram infundir nos corações das cri-anças a indiferença, o desprezo e até o ódio contra esta Imaculada Mãe ; 5. – Os que A ultrajem directamente nas suas sagradas imagens”

III – CONDIÇÕES

As condições para ganhar o privilégio dos Primeiros Sábados são quatro:

1. Confissão. Para cada Primeiro Sábado é precisa uma confissão com intenção reparadora. Pode fazer-se em qualquer dia, antes ou depois do Primeiro Sábado, contanto que se receba a Comunhão em estado de graça.

A vidente perguntou: – “Meu Jesus, as (pessoas) que se esquecerem de formar essa intenção (reparadora)? Jesus respondeu – Podem formá-la na confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem para se confessar”.

As outras três condições devem cumprir-se no próprio Primeiro Sábado, a não ser que algum sacerdote, por justos motivos, conceda que se possam fazer no domingo a seguir.

2. A Comunhão Reparadora.

3. O Terço.

4. A meditação, durante 15 minutos, de um só mistério, de vários ou de todos. Também vale uma meditação ou explicação de 3 minutos antes de cada um dos 5 mistérios do terço que se está a rezar.

Em todas estas quatro práticas deve-se ter a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.

A devoção dos 5 Primeiros Sábados foi aprovada pelo Bispo de Leiria a 13-9-1939, em Fátima.

ACTO DE CONSAGRAÇÃO E DESAGRAVO

Virgem Santíssima e Mãe nossa querida, ao mostrardes o vosso Coração cerca-do de espinhos, símbolo das blasfémias e ingratidões com que os homens ingratos pagam as finezas do vosso amor, pedistes que Vos consolássemos e de-sagravássemos.

Ao ouvir as vossas amargas queixas, desejamos desagravar o vosso doloroso e Imaculado Coração que a maldade dos homens fere com os duros espinhos dos seus pecados.

Dum modo especial Vos queremos desagravar das injúrias sacrilegamente proferidas contra a vossa Conceição Imaculada e Santa Virgindade. Muitos, Senhora, negam que sejais Mãe de Deus e nem Vos querem aceitar como terna Mãe dos homens. Outros, não Vos podendo ultrajar directamente, descarregam nas vossas sagradas imagens a sua cólera satânica. Nem faltam também aqueles que procuram infundir nos corações das crianças inocentes, indiferença, desprezo e até ódio contra Vós.

Virgem Santíssima, aqui prostrados aos vossos pés, nós Vos mostramos a pena que sentimos por todas estas ofensas e prometemos reparar com os nossos sacrifícios, comunhões e orações tantas ofensas destes vossos filhos ingratos.

Reconhecendo que também nós, nem sempre correspondemos às vossas predilecções, nem Vos honrámos e amámos como Mãe, suplicamos para os nossos pecados misericordioso perdão.

Para todos quantos são vossos filhos e particularmente para nós, que nos consagramos inteiramente ao vosso Coração Imaculado, seja-nos ele o refúgio du-rante a vida e o caminho que nos conduza até Deus. Assim seja.

CINCO, PORQUÊ?

O Padre José Bernardo Gonçalves (1894-1966) propôs em Maio de 1930 à Irmã Lúcia, de quem foi confessor, seis perguntas para as quais pedia esclarecimento.

Eis o que se refere à quarta, com a respectiva resposta dada por escrito:

« Porque hão-de ser ‘5 sábados’ e não 9 ou 7 em honra das dores de Nossa Se-nhora ?

Ficando na capela com Nosso Senhor parte da noite do dia 29 para 30 deste mês de Maio de 1930, e falando a Nosso Senhor das duas perguntas 4.ª e 5.ª, senti-me de repente possuída intimamente da divina presença; e, se não me engano, foi-me revelado o seguinte :

‘Minha filha, o motivo é simples: são 5 as espécies de ofensas e blasfémias contra o Imaculado Coração de Maria:

1.ª – As blasfémias contra a Imaculada Conceição.

2.ª – Contra a Sua virgindade.
3.ª – Contra a Maternidade Divina, recusando, ao mesmo tempo, recebê-La como Mãe dos homens;
4.ª – Os que procuram publicamente infundir, nos corações das crianças, a indiferença, o desprezo, e até o ódio para com esta Imaculada Mãe ;

5.ª – Os que A ultrajam directamente nas suas sagradas Imagens.

Eis, Minha filha, o motivo pelo qual o Imaculado Coração de Maria Me levou a pedir esta pequena reparação; e, em atenção a ela, mover a minha misericórdia ao perdão para com essas almas que tiveram a desgraça de A ofender».

Primeira ofensa: negação da Imaculada Conceição.

A 8 de Dezembro de 1854, definiu o Papa Pio IX : « Declaramos, pronunciamos e definimos, que a doutrina que sustenta que a bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante da sua Conceição, foi por graça e privilégio singular de Deus Todo-Poderoso... preservada e imune de toda a mancha do pecado origi-nal, foi revelada por Deus e como tal deve ser firme e constantemente acreditada por todos os fiéis ».

Recusam este privilégio várias confissões protestantes, os racionalistas, e implicitamente aqueles que negam o pecado original, pois que a Imaculada Conceição é precisamente a isenção dessa mancha, que em tal hipótese não existiria.

Segunda ofensa: negação da Virgindade perpétua de Maria.

A 6 de Novembro de 1982 disse João Paulo II no Santuário do Pilar em Sara-goça, Espanha : « De modo virginal ‘sem intervenção de varão, e por obra do Espírito Santo, Maria deu a natureza humana ao Filho Eterno do Pai. De modo virginal nasceu de Maria um corpo santo. É a fé que...o Papa Paulo IV articulava na forma ternária de Virgem ‘antes do parto, no parto e perpetuamente de-pois do parto’. É a mesma que ensina Paulo VI: ‘Cremos que Maria é Mãe sem-pre Virgem do Verbo encarnado ».

Opõem-se a esta verdade os que negam que a Conceição e o parto de Jesus não foram virginais, e que Maria não conservou no parto a sua integridade, assim como aqueles que afirmam que Ela teve mais filhos além de Jesus.

Terceira ofensa: negação da maternidade divina e espiritual de Maria.

Declarou o III Concílio de Constantinopla no ano de 680 : « Nosso Senhor Jesus Cristo – nasceu do Espírito Santo e de Maria Virgem, que é, segundo a humanidade, própria e verdadeiramente Mãe de Deus».

É também Mãe espiritual dos homens, pela sua participação no Mistério da Encarnação e Co-redenção.

Quarta ofensa: ódio para com a Imaculada Mãe de Deus.

A ideologia Marxista-comunista procurou eliminar todos os vestígios de reli-gião, a começar pelas crianças. O Ministério da Educação soviética declarou nesses tempos : « A educação comunista tem como fim principal eliminar todos os vestígios da religião ». Ensinava-se às crianças o racionalismo puro e, além disso, em certa nação, os pequeninos aprendiam « ladaínhas » de injúrias contra a Mãe de Deus.

Quinta ofensa: ultrajes às sagradas imagens.

Chegou-se ao descaramento de destruir e ultrajar as imagens de Nossa Senhora, sobretudo quando expostas em público. Certamente também desgostam a Maria Santíssima aqueles que tiram dos templos as suas imagens ou as redu-zem ao mínimo, contrariando o Concílio Vaticano II. « Observem religiosamente aquelas coisas que nos tempos passados foram decretadas acerca do cul-to das imagens de Cristo, da Bem-aventura Virgem e dos Santos ».

São estas cinco ofensas a Maria que devemos reparar nos cinco primeiros sábados.

Textos P. Fernando Leite, sj

































































segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

VERÓNICA JULIANI

Religiosa, Mística, Santa
1660-1727

Hoje, gostaria de apresentar uma mística que não é da época medieval; trata-se de Santa Verónica Juliani, monja clarissa capuchinha. O motivo é que no próximo dia 27 de Dezembro se celebra o 350° aniversário do seu nascimento. Città di Castello, lugar onde ela viveu durante muitos anos e faleceu, assim como Mercatello — sua cidade natal — e a diocese de Urbino, vivem este acontecimento com alegria.

Verónica nasce precisamente no dia 27 de Dezembro de 1660 em Mercatello, no vale do Metauro, filha de Francesco Juliani e Benedetta Mancini; é a última de sete irmãs, das quais outras três abraçarão a vida monástica; é-lhe conferido o nome de Úrsula. Aos sete anos perde a mãe, e o pai transfere-se para Piacenza como superintendente das alfândegas do ducado de Parma. Nessa cidade, Úrsula sente crescer em si o desejo de dedicar a vida a Cristo. O apelo faz-se cada vez mais urgente, a tal ponto que, com 17 anos, entra na estrita clausura do mosteiro das Clarissas Capuchinhas de Città di Castello, onde permanecerá durante toda a sua vida. Ali recebe o nome de Verónica, que significa «verdadeira imagem» e, com efeito, ela tornar-se-á deveras imagem de Cristo Crucificado. Um ano depois, emite a solene profissão religiosa: começa para ela o caminho de configuração com Cristo através de muitas penitências, grandes sofrimentos e algumas experiências místicas ligadas à Paixão de Jesus: a coroação de espinhos, as bodas místicas, a ferida no coração e os estigmas. Em 1716, com 56 anos, torna-se abadessa do mosteiro e é reconfirmada nesta função até à sua morte, ocorrida em 1727, depois de uma dolorosíssima agonia de 33 dias, que culmina numa profunda alegria, a tal ponto que as suas últimas palavras foram: «Encontrei o Amor, o Amor deixou-se ver! Esta é a causa do meu padecimento. Dizei-o a todas, dizei-o a todas!» (Summarium beatificationis, 115-120). Em 9 de Julho deixa a morada terrena para o encontro com Deus. Tem 67 anos, 50 dos quais transcorridos no mosteiro de Città di Castello. É proclamada Santa no dia 26 de Maio de 1839 pelo Papa Gregório XVI.

Verónica Juliani escreveu muito: cartas, relatórios autobiográficos e poesias. Todavia, a fonte principal para reconstruir o seu pensamento é o seu Diário, iniciado em 1693: vinte e duas mil páginas manuscritas, que abrangem um arco de trinta e quatro anos de vida claustral. A escrita flui espontânea e contínua, não há cancelamentos ou correcções, nem sinais de pontuação ou distribuição da matéria em capítulos ou partes, segundo um desígnio previamente estabelecido. Verónica não queria compor uma obra literária; aliás, foi obrigada a escrever as suas experiências pelo Padre Girolamo Bastianelli, religioso dos Filippini, de acordo com o Bispo diocesano Antonio Eustachi.

Santa Verónica tem uma espiritualidade acentuadamente cristológico-esponsal: é a experiência de ser amada por Cristo, Esposo fiel e sincero, e querer corresponder com um amor cada vez mais comprometido e apaixonado. Nela, tudo é interpretado em chave de amor, e isto infunde-lhe uma profunda serenidade. Tudo é vivido em união com Cristo, por amor a Ele, e com a alegria de poder demonstrar-lhe todo o amor de que a criatura é capaz.

O Cristo ao qual Verónica está profundamente unida é aquele que sofre na paixão, morte e ressurreição; é Jesus no gesto de se imolar ao Pai para nos salvar. É desta experiência que deriva também o amor intenso e sofredor pela Igreja, na dúplice forma da oração e da oferenda. A Santa vive nesta perspectiva: reza, sofre e procura a «santa pobreza» como «expropriação», perda de si (cf. ibid., III, 523), precisamente para ser como Cristo, que se entregou inteiramente a si mesmo.

Em cada página dos seus escritos, Verónica recomenda alguém ao Senhor, corroborando as suas preces de intercessão com a oferta de si em cada sofrimento. O seu amor dilata-se a todas «as necessidades da Santa Igreja», vivendo com ansiedade o desejo da salvação de «todo o universo» (Ibid., III-IV, passim). Verónica clama: «Ó pecadores, ó pecadoras... todos e todas, ide ao Coração de Jesus; ide à lavanda do seu preciosíssimo Sangue... Ele espera-vos com os braços abertos para vos abraçar» (Ibid., II, 16-17). Animada por uma caridade fervorosa, ela presta atenção, compreensão e perdão às irmãs do mosteiro; oferece as suas orações e os seus sacrifícios pelo Papa, pelo seu bispo, pelos sacerdotes e por todas as pessoas necessitadas, inclusive pelas almas do purgatório. Resume a sua missão contemplativa com estas palavras: «Não podemos ir pregando pelo mundo, para converter as almas, mas somos obrigadas a rezar incessantemente por todas aquelas almas que ofendem a Deus... de modo particular com os nossos sofrimentos, ou seja, com um princípio de vida crucificada» (Ibid., IV, 877). A nossa Santa concebe esta missão como um «estar no meio», entre os homens e Deus, entre os pecadores e Cristo crucificado.

Verónica vive de modo profundo a participação no amor sofredor de Jesus, convicta de que o «sofrer com alegria» é a «chave do amor» (cf. ibid., I, 299.417; III, 330.303.871; IV, 192). Ela evidencia que Jesus padece pelos pecados dos homens, mas também pelos sofrimentos que os seus servos fiéis tiveram que suportar ao longo dos séculos, no tempo da Igreja, precisamente mediante a sua fé sólida e coerente. Ela escreve: «O seu Pai eterno fez-lhe ver e sentir, nessa altura, todos os padecimentos que deviam suportar os seus eleitos, as suas almas mais amadas, ou seja, aquelas que teriam beneficiado do seu Sangue e de todos os seus sofrimentos» (Ibid., II, 170). Como diz de si o Apóstolo Paulo: «Agora alegro-me nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, pelo seu corpo que é a Igreja» (Cl 1, 24). Verónica chega a pedir a Jesus para ser crucificada com Ele: «Num instante — escreve — vi sair das suas santíssimas chagas cinco raios resplandecentes; e todos vieram ao meu redor. E eu via estes raios tornar-se como que pequenas chamas. Em quatro delas havia os pregos; e numa a lança, como que de ouro, inteiramente abrasada: e trespassou-me o coração, de um lado para o outro... e os pregos trespassaram-me as mãos e os pés. Senti uma grande dor; mas, na mesma dor, eu via-me a mim mesma, sentia-me inteiramente transformada em Deus» (Diário, I, 897).

A Santa está convencida de participar antecipadamente no Reino de Deus mas, ao mesmo tempo, invoca todos os Santos da Pátria bem-aventurada para que venham em sua ajuda no caminho terreno da sua doação, à espera da bem-aventurança eterna; esta é a aspiração constante da sua vida (cf. ibid., II, 909; V, 246). Em relação à pregação dessa época, centrada não raro na «salvação da própria alma» em termos individuais, Verónica mostra um forte sentido «solidário», de comunhão com todos os irmãos e irmãs, caminho rumo ao Céu, e vive, reza e sofre por todos. As realidades penúltimas, terrenas, ao contrário, embora sejam apreciadas em sentido franciscano como um dom do Criador, são sempre relativas, inteiramente subordinadas ao «gosto» de Deus e sob o sinal de uma pobreza radical. Na communio sanctorum, ela esclarece a sua doação eclesial, assim como a relação entre a Igreja peregrina e a Igreja celeste. «Todos os Santos — escreve — estão lá em cima mediante os méritos e a paixão de Jesus; mas para tudo quanto nosso Senhor realizou, eles cooperaram, de tal modo que a sua vida foi inteiramente ordenada, regulada pelas (suas) mesmas obras» (Ibid., III, 203).

Nos escritos de Verónica encontramos muitas citações bíblicas, às vezes de modo indirecto, mas sempre claras: ela revela familiaridade com o Texto sagrado, do qual se nutre a sua experiência espiritual. Além disso, há que revelar que os momentos fortes da experiência mística de Verónica nunca estão separados dos acontecimentos salvíficos, celebrados na liturgia, onde ocupam um lugar particular a proclamação e a escuta da Palavra de Deus. Portanto, a Sagrada Escritura ilumina, purifica e confirma a experiência de Verónica, tornando-a eclesial. Mas por outro lado, precisamente a sua experiência, alicerçada na Sagrada Escritura com uma intensidade excepcional, guia a uma leitura mais profunda e «espiritual» do mesmo Texto, entra na profundidade escondida do texto. Ela não só se exprime com as palavras da Sagrada Escritura, mas também vive realmente destas palavras, que nela se tornam vivas.

Por exemplo, a nossa Santa cita com frequência a expressão do Apóstolo Paulo: «Se Deus é por nós, quem será contra nós?» (Rm 8, 31; cf. Diário, I, 714; II, 116.1021; III, 48). Nela, a assimilação deste texto paulino, esta sua grande confiança e profunda alegria tornam-se um acontecimento completo na sua própria pessoa: «A minha alma — escreve — foi unida à vontade divina, e eu estabeleci-me verdadeiramente e fixei-me para sempre na vontade de Deus. Parecia que nunca mais me iria afastar desta vontade de Deus, e voltei a mim com estas palavras específicas: nada me poderá separar da vontade de Deus, nem angústias, nem penas, nem dificuldades, nem desprezos, nem tentações, nem criaturas, nem demónios, nem obscuridades, nem sequer a própria morte, porque na vida e na morte, desejo inteiramente, e em tudo, a vontade de Deus» (Diário, IV, 272). Assim, temos também a certeza de que a morte não é a última palavra, estamos fixos na vontade de Deus e assim, realmente, na vida para sempre.

Verónica revela-se, em particular, uma testemunha corajosa da beleza e do poder do Amor divino, que a atrai, permeia e inflama. É o Amor crucificado que se imprimiu na sua carne, como na de São Francisco de Assis, com os estigmas de Jesus. «Minha esposa — sussurrava-me Cristo crucificado — são-me preciosas as penitências que fazes por aqueles que estão em desgraça diante de mim... Depois, tirando um braço da cruz, fez-me sinal que me aproximasse do seu lado... E encontrei-me nos braços do Crucificado. Não posso descrever aquilo que senti naquele momento: queria estar sempre no santíssimo lado» (Ibid., I, 37). É também uma imagem do seu caminho espiritual, da sua vida interior: estar no abraço do Crucificado e assim permanecer no amor de Cristo pelos outros. Também com a Virgem Maria, Verónica vive uma relação de profunda intimidade, testemunhada pelas palavras que um dia ouve Nossa Senhora dizer, e que ela cita no seu Diário: «Fiz-te repousar no meu seio, recebeste a união à minha alma e por ela, como que em voo, foste levada diante de Deus» (IV, 901).

Santa Verónica Juliani convida-nos a fazer crescer, na nossa vida cristã, a união com o Senhor no ser pelos outros, abandonando-nos à sua vontade com confiança completa e total, e a união com a Igreja, Esposa de Cristo; convida-nos a participar no amor sofredor de Jesus crucificado pela salvação de todos os pecadores; convida-nos a manter o olhar fixo no Paraíso, meta do nosso caminho terreno, onde viveremos juntamente com muitos irmãos e irmãs a alegria da plena comunhão com Deus; convida-nos a nutrir-nos quotidianamente da Palavra de Deus para aquecer o nosso coração e orientar a nossa vida. As últimas palavras da Santa podem considerar-se a síntese da sua apaixonada experiência mística: «Encontrei o Amor, o Amor deixou-se ver!».

Bento XVI : Audiência geral da quarta-feira 15 de Dezembro de 2010.

sábado, 15 de janeiro de 2011

DIRECÇÃO ESPIRITUAL II

SOBRE A OBEDIÊNCIA

No primeiro artigo sobre direcção espiritual foi apresentado um texto do célebre livro “Imitação de Jesus Cristo”, livro que “cada um de nós deveríamos ter em cima da mesa de cabeceira”, como alguém disse, não para ocupar lugar, mas para ser lido.

O texto apresentado tratava da obediência, não de uma obediência cega ou masochista, mas aquela que permite progredir no caminho da perfeição. Todavia nem sempre é fácil obedecer, nem sempre é fácil se deixar admoestar por outrem, fosse este o maior doutor de ascética e mística, porque cada um de nós está sujeito a um inimigo feroz: o nosso Ego. Eis a razão porque no dito texto podemos ler: “Mas porque ainda te amas desordenadamente, por isso te repugna sujeitar-te de todo à vontade dos outros”.

Um dos maiores escritores sobre ascética e mística, foi sem dúvida o sacerdote francês Adolfo Tanquerey, cujo “Compêndio de ascética e mística” foi utilizado, antes do Concilio Vaticano II, em quase todos os seminários do mundo, diz que “um acto de obediência aos Superiores feito por um duplo motivo, por respeito pela autoridade, e ao mesmo tempo por amor de Deus que eles representam, terá um duplo mérito: o da obediência e o da caridade”. (§ 240-1)

Mas não é tudo, porque, diz o mesmo autor, “um acto de obediência e de humildade, a mais do valor próprio, recebe da caridade um valor muito maior, quando feito para agradar a Deus, porque assim se torna um acto de amor, quer dizer um acto da mais perfeita de todas as virtudes. Acrescentemos que este acto se torna mais fácil e mais atractivo: obedecer e humilhar-se custa muito à nossa natureza orgulhosa, mas ter consciência que praticando estes actos amamos Deus e procuramos a Sua glória, facilita-os singularmente.

Assim pois a caridade é não somente a síntese, mas a alma de todas as virtudes: ela une-nos a Deus de uma maneira mais perfeita e mais directa do que todas as outras; é portanto ela que constitui a essência mesmo de perfeição”. (§ 319-b)

Nunca pretendi ser “especialista” em direcção espiritual, nem teólogo: nada mais sou do que um “biscateiro” que procura ajudar naquilo que pode e onde pensa ter alguma utilidade. Se falo de direcção espiritual é porque é matéria que me interessa e porque me interessa procuro partilhar “com lealdade” e amor os poucos conhecimentos que possa ter. Se eles servirem a alguém, tanto melhor. Se algo disser que não seja justo, penso que aqui neste meio de comunicação existem numerosos sacerdotes, mais doutos do que eu, que poderão corrigir ou alertar para qualquer erro que eu possa cometer. A vida ensinou-me a ouvir os outros e a aceitar com humildade o que me dizem, mesmo quando isso magoa o meu pior inimigo: o amor-próprio.

Tomo, como se para mim fosse escrito, este conselho do Padre Tanquerey:

“Fazer progressos na obediência, é ao mesmo tempo fazer acto de humildade, de mortificação e de espírito de fé; é ao mesmo tempo adquirir a humildade e pela mesma ocasião se aperfeiçoar na obediência, no amor de Deus, na caridade, sendo o orgulho o obstáculo principal na prática destas virtudes”. (Padre Adolfo Tanquerey: “Compêndio de Ascética e Mística” § 468-b).

“Melhor é obedecer a Deus do que aos homens”, é uma verdade incontestável que não sofre qualquer contestação. Todavia, em matéria espiritual, ou melhor na direcção espiritual, existe uma alternativa muito particular, como podemos ver nas cartas da Beata Alexandrina ao seu Primeiro Director espiritual, que seguir transcrevo:

“Disse-me o meu amado Jesus que será Ele o meu Director e o meu Mestre contínuo, frequente, habitual, e V.R. lá de longe; mas que tenho que lhe obedecer primeiro do que a Ele”.

Ora, antes da beatificação, os escritos da Beata Alexandrina foram controlados por sete teólogos romanos e nenhum deles levantou qualquer protesto contra o que acabamos de ler, simplesmente porque assim é.

Tão estranho que possa parecer, esta é uma regra constante na direcção espiritual e comum aos Santos que beneficiaram de comunicações celestes, e cujos escritos podemos ler, tais como Santa Teresa de Ávila ou, mais perto de nós, Santo (Padre) Pio de Pietrelcina... e a Beata Alexandrina.
Afonso Rocha

domingo, 29 de agosto de 2010

TRANSVERBERAÇÃO

“VOU FERIR-TE O CORAÇÃO”

Os “Sentimentos da alma” da Beata Alexandrina contêm muitas maravilhas de teologia mística.

Aqueles de 1947, a mais de serem duma grande riqueza obedecem ― não sabemos explicar por que razão ― a um método particular: cada “diário” começa por uma introdução, mais ou menos longa, onde a Alexandrina nos dá conta de tudo quanto nesse momento se passa na sua alma: explica-nos os “Sentimentos da sua alma”. Vem depois o colóquio propriamente dito, com as intervenções de Jesus ou de Maria, e algumas vezes ― no primeiro sábado de cada mês, em regra geral ― a intervenção dos Dois.

Neste período a Alexandrina está investida duma missão especial: acolher em seu coração e na sua alma a humanidade inteira. Jesus tinha, desde já algum tempo, fechado no coração da sua querida esposa de Balasar a humanidade pecadora que continuava a ofender alegremente a Deus, pouco se importando nem dos divinos apelos à conversão e ainda menos de tudo quanto a Igreja de Pedro proponha para a conversão e bem das almas.

Esta missão tinha sido selada no decorrer duma cerimónia particular, estando presentes Jesus e Maria. Foi Nossa Senhora que, num gesto materno cheio de ternura e amor, colocou Ela mesma, no coração da Alexandrina, a humanidade inteira.

Eis a razão porque depois a Alexandrina se sentia “investida” desta e por esta humanidade pecadora, da qual ela devia, regularmente prestar contas ao Senhor sobre o estado em que se encontrava então esta mesma humanidade. Este “prestar contas” era uma causa de grandes sofrimentos para ela, sobretu-do que de maneira nenhuma a humanidade parecia querer arrepiar caminho.

O começo dos “Sentimentos” do dia 13 de Junho de 1947 ― festa do Sagrado Coração de Jesus ― são disso um exemplo concreto e elucidam perfeitamente o que acabamos de afirmar:

« A minha vida é morte; continuo a viver a vida dos mortos. Que imensa sepultura, em que podridão estou sepultada; causa-me nojo, causa-me horror. Sinto-me a ser comida pelos bichos escondidos nesta podridão; sinto-os a mexer e remexer nesta imundice. E não tenho outra vida a não ser esta, nem outra luz a não serem as trevas do meu espírito. Triste cegueira que não me deixa ver senão horrores nojen-tos, apodrecidos ».
A humanidade, a pobre humanidade, parece bem incrustada nela, como se imensos tentáculos lhe permitissem de se ancorar fortemente. Que fazer então?

A Alexandrina tinha-se oferecido generosamente como vítima para a salvação das almas; ela nunca tinha recusado o mínimo sacrifício ao Senhor, nada mais pedindo do que a Sua ajuda para suplantar a fraqueza própria. Nessa ocasião, como desde há muito, Jesus tinha-lhe dado como lema, como programa de vida: “Amar, sofrer, reparar!”

Tomando a peito a sua missão e não tendo que um único e só desejo: amar e pôr em prática a Vontade divina, ela tudo faz no intuito de levar a cabo a sua missão tão delicada quanto difícil. Mas, quando se ama não se fazem contas, eis porque razão, na sua simplicidade habitual ela afirma na mesma página dos “Sentimentos da alma”:

« E eu tanto a amo, abracei-a tanto e sinto não poder estar neste mundo sem ela. Quanto mais me orgulho, mais me quero mergulhar. Quantas mais trevas, mais trevas anseio ».
Não, não se trata aqui de masoquismo: aqui tudo é amor, nada mais do que amor, como também o afirma ela logo a seguir:

« Ó amor do meu Jesus, não vivo, não conheço, não vejo; as coisas do Senhor não mas mostram a minha cegueira, as minhas trevas. Não posso pensar que não amo a Jesus e tan-to anseio amá-Lo e fazê-Lo amado pelas criaturas. Quero subir para Ele e caio ».
Esta impressão de cair, de nada poder conseguir, nada mais é do que uma impressão que a Alexandrina atribui à sua ignorância, possivelmente também à sua falta de cultura, mas que é antes de mais uma imensa prova da sua extraordinária humildade. Para nos convencermos, baste lermos o que ela escreveu a seguir:

« Não me revisto Dele nem das Suas coisas; nada com-preendo do que é do Céu. Que pobre e ignorante que eu sou! É por isso que eu sofro e quase me chego a persuadir que a minha vida, de tudo o que diz respeito às coisas do Senhor é uma ilusão minha; não digo intrujice porque não quero enganar ninguém. Como pode Jesus descer do mais alto ao mais baixo? Bendito Ele seja ».
Esta “incorporação” da humanidade trás com ela outros problemas espirituais ainda mais delicados e difíceis: a intervenção de Satanás.

Bem sabemos que o anjo das trevas é o maior adversário do Senhor e que toda e qualquer obra tendendo ao bem das almas é para ele causa de tormentos e de muitas derrotas anunciadas. Desde logo ele se enerva, desencadeia cercos e enérgicos assaltos ― estes numerosíssimos! ― para contrariar os planos divi-nos e se possível derrubá-los. Para conseguir obter os resultados desejados, para ele todos os meios são bons. Escutemos o que diz a Alexandrina:

« O demónio tem lutado para me levar a praticar tantos males; só com a graça de Jesus poderei resistir. Sinto-me como se fosse por ele arrastada para a maldade, para os vícios. Parece-me que estou revestida dele e de tudo o que a ele pertence. Não tive os combates apesar de os esperar, porque a grande tormenta que ele me causava me levava a crer que ele viesse. Mas nem por isso deixei de sofrer, ao sentir-me por ele arrastada, seduzida para tantas coisas fra-cas e parece-me que estou dele revestida e mergulhada em todos os tormentos do inferno ».
« O demónio tem lutado para me levar a praticar tantos males ». Satanás gos-taria de convencer a Alexandrina de tirar proveito da sua juventude, de viver de maneira libertina, provando todos os prazeres, mesmo os mais baixos. Quando as palavras parecem inoperantes, ele utiliza os seus “quadros” libidi-nosos e, juntando as imagens às palavras, ele insiste descaradamente. Como ela resiste, ele enerva-se, uiva e chega mesmo a atirá-la abaixo da cama, gri-tando-lhe uma ladainha de palavras obscenas, de cuja maioria a pobre vítima nem conhece a significação.

Desta vez, no entanto, o Senhor não permitiu uma tal desenvoltura da parte de Satanás, porque Alexandrina, parecendo mesmo um pouco admirada, escreve para o seu diário:

« Não tive os combates apesar de os esperar, porque a gran-de tormenta que ele me causava me levava a crer que ele viesse ».
Esta aparente e passageira acalmia não impede nem o sofrimento nem os estratagemas do espírito do mal que a arrasta até aos limites do seu sinistro domínio, acabando mesmo por “mergulhá-la em todos os tormentos do infer-no”. Mas Alexandrina resiste, chama e implora o socorro dos seus Amores (a Santíssima Trindade) e pela Mãezinha que ela tanto ama. Depois, cansada, exangue, mas vitoriosa, ela filosofa:

« Se ao menos com os meus sofrimentos evitasse o pecado! Se com tudo isto, eu amasse a Jesus e O visse em todos os corações amado! »
Alexandrina, como a grande Doutora da Igreja, Santa Teresa de Ávila, pode exclamar:

« E, se então o demónio me tivesse acometido a descoberto, julgo que, de modo algum, eu voltaria a pecar gravemente ».
A vitória não a impede todavia de continuar na sua missão inaugural: “amar, sofrer, reparar”.

Vêm-lhe depois à mente outras recordações dolorosas: a sua estadia no Porto durante quarenta dias, sob o olhar perspicaz e nem sempre caridoso do Doutor Gomes de Araújo. Ouçamo-la:

« Tenho vivido, nestes dias, sem procurar viver, a minha vida de há quatro anos na Foz. Como eu recordo todos os sofrimentos, gestos e palavras. Está tudo tão gravado em mim e tão profundamente, que jamais se apagará. Tudo isto por amor do meu Jesus e às almas; e nem mesmo assim O amo e as salvo ».
Este controle médico, proposto pelo médico, Doutor Manuel Augusto de Aze-vedo e desejado pelo Senhor Arcebispo de Braga, ficará para sempre gravado no pensamento da Alexandrina, visto que muitos anos depois, ele dele se lem-brará de “todos os sofrimentos, gestos e palavras”, como ela mesmo no-lo con-ta na sua Autobiografia.

O estado da sua alma, a noite do espírito interminável, constituem outras tan-tas razões que, nunca a fazendo duvidar da misericórdia divina, a interpelam e dão-lhe ocasião de se questionar, de falar a Jesus de coração a Coração:

« Meu Jesus, que pena eu tenho de não Vos pertencer intei-ramente ».
Durante o período em que o Padre Mariano Pinho foi seu director espiri-tual ― entenda-se: enquanto foi autorizado a dirigi-la e a visitá-la ― acontecia que este celebrasse a Santa Missa no quarto da Alexandrina. Mas o bom jesuíta teve de deixá-la, obrigado a isso pelos seus superiores que, pensando fazer bem, o enviaram para o Brasil, de maneira a aniquilar, tanto quanto possível, os rumores que circulavam, rumores alimentados em parte por um dos seus colegas, também jesuíta, pouco caridoso.

Acamada desde os dezasseis anos, Alexandrina sente saudades da Missa, a necessidade deste reconforto que lhe falta e, ela o confessa humildemente ao Senhor, numa frase simples e humilde que se aparenta a uma queixa amorosa:

« Lembro com profunda dor e vivas saudades o Santo Sacri-fício da Missa. Já aos anos que eu a não tenho no meu quar-tinho! Não voltarei a ter este mimo do Céu? Estou pronta, Jesus, para em tudo ser a Vossa vítima ».
Tendo recebido importantes comunicações divinas, Alexandrina tinha escrito ao Santo Padre. Não era a primeira vez que ela o fazia... Mas, desta vez, a mais da carta, certas pessoas tinham viajado para Roma com o fim de interceder junto do Papa, porque o momento era grave para a Igreja e para o mundo . Sem verdadeiramente revelar o conteúdo da sua carta nem mesmo a mensa-gem que a “delegação” devia testemunhar perante o Sumo Pontífice, ela escre-ve:

« O meu coração, o meu espírito voa a Roma; não só acom-panhando os que já partiram para lá, mas também para já estar junto de Sua Santidade para implorar e receber dele aquilo que não sabe, mas que anseia e sabe que só dele virá. Pobre de mim! Tudo anelo e nada possuo a não ser miséria ».
De novo “habitada” pela sua legendária humildade ela conta-nos a sua paixão desse dia.

Não são aqui necessários quaisquer comentários, porque o seu texto é claro e preciso. Hei-lo:

« Ontem, logo que caiu a tarde, senti como se me tirassem um vestido mundial, que me tornou o escândalo de toda a gente, tal era a podridão, de que ele era feito. E assim vestida vergonhosamente, segui e cheguei ao Horto. Ali, desceu o Céu, a esmagar-me, e toda a humanidade a rasgarem-me e a arrancarem-me do corpo todos os nervos e veias. O que ali sofreu Jesus, dentro em meu pobre corpo, que tinha o Hor-to, o Calvário, a cruz e a morte! Ao receber o beijo de Judas vi, não o meu rosto, mas o de Jesus e o dele muito unidos, e fiquei a sentir, por muito tempo, que aquele beijo, ingratidão e traição se iam repetir, através de todos os tempos. Oh! Como transbordou o cálice da amargura, enchido de sangue inocente.

Na manhã de hoje caí desfalecida ao pé da coluna; recebi a chuva de açoites, que sobre mim foi descarregada, e vi Jesus, dentro em mim, no mesmo sofrimento, de olhos fitos no Céu, em sinal de oração a Seu Eterno Pai. Fui coroada de agudíssimos espinhos; tomei a cruz, segui o Calvário; saiu-me ao encontro a Mãezinha. Que dor senti com o seu pranto e dor! As lágrimas que no Seu rosto corriam, corriam-me no coração. Em todo o percurso do Calvário não perdi mais a união com Ela. Eu não arrastava só a cruz, arrastava-A tam-bém a Ela, ou melhor, arrastava a Sua dor. Mais adiante veio a Verónica com todo o sentimento de amor limpar o rosto de Jesus gravado no seu. Jesus deixou-Lho imprimido como recompensa, ela apertou-o ao coração como o maior tesouro e na verdade o era. Se eu soubesse amar a Jesus como a Verónica O amou! Se eu assim O abraçasse para não mais O deixar! Ó meu Deus, ó meu Jesus, pobre de mim que nada sou e nada sei! Cheguei ao Calvário; caído ao pé da cruz, antes de nela ser crucificada, nova descarga de pancadas feriu e despedaçou mais o resto das minhas carnes. No alto da cruz não senti outra coisa a não ser Jesus com os Seus olhares divinos a ver todo o mundo, toda a ingratidão e com a vista do corpo fitar o firmamento a orar e a desculpar-nos a Seu Eterno Pai. Agonizou, expirou e eu com Ele ».
Este dia 13 de Junho, como já dito, era o dia da festa do Sagrado Coração de Jesus. Nesse dia o Senhor vai oferecer à Alexandrina um prémio inestimável do qual poucos santos beneficiaram: a transverberação.

Mas antes disso, talvez para prepará-la a tão insigne graça, Jesus toma-a e deposita-a no seu Coração. Mas deixemos que ela mesma nos conte:

« Tão depressa morri que logo vivi; foi Jesus que me deu a vida, chamou-me e disse-me:

― Vem, Minha filha, ao Meu amor, ao Meu divino coração é o dia dele; vem gozar do Céu, vem receber amor. Eu quero-te pura, sem manchas; quero-te digna de Mim. Esforça-te, cor-rige-te, de todos os teus defeitos. Dizia-te até agora que pre-cisava das tuas faltas para Me esconder; agora digo-te: não as quero para mais Eu em ti aparecer. Quero que tudo o que é Meu em ti transpareça; quero que os teus olhares tenham a pureza dos Meus; quero que os teus lábios tenham o sorriso, a doçura dos Meus; quero que o teu coração tenha a ternura, a caridade e o amor do Meu; em suma: quero que em tudo Me imites, quero-te semelhante a Mim; quero que todo o teu corpo seja o Corpo de Jesus, um outro Cristo. És a nova redentora. Quero-te pura, pura com a Minha mesma pureza, quero-te digna de Mim, quero-te preparada para voares ao Céu. A dor e o Meu divino amor purifica-te; a dor e o Meu divino amor são de salvação para as almas. Vou ferir-te o coração; vai ser aberto pelo anjo S. Gabriel, para, depois, por essa abertura, por essa chaga trespassarem os raios do sol, os raios do Meu amor, para dele passarem ao mundo, passa-rem às almas. Antes disso, quero injectar-to de amor, quero preparar-to para receber o golpe. Em todo este tempo goza-rás do Céu, gozarás do Paraíso; Jesus, no mesmo instante, não sei com quê, regou-me o coração com uma chuva miu-dinha doirada; aquela chuva causticou-me e parecia-me tê-lo separado do corpo ».
A descrição do que então se passou não acaba aqui, é mais longa, mas pareceu-nos judicioso pô-la em paralelo com a descrição que faz Santa Teresa de Ávila a quem o Senhor gratificou com a mesma graça:


Escreve a Beata Alexandrina

Ao meu lado direito estava a Mãezi-nha, à frente, Jesus, e, à esquerda, o Anjo com uma lança na mão. Por cima de nós e em nós desceu o Céu com todo o seu azul, guarnecido de Anjos; muito no cimo, um grande trono da Santíssima Trindade. Tudo era luz, gozo, doçura e amor. A vida do Céu! A vida das almas! Vivia-se ali, mergulhada naquele amor de gozo, parecido com uma nuvem ou fumo branco, que por si se sustenta e conserva no ar; era um nadar de doçura. A um sinal de Jesus, o Anjo levantou a lança, cravou-ma no coração; trespassou-mo, dum lado ao outro; não senti dor. No mesmo momento que ele retirou a lança, vieram do coração de Jesus para o meu muitos raios de amor mais belos que ouro, mais brilhantes e encantadores do que os raios do sol ao nascer. Trespassaram-me todo o coração esses raios, e pareciam reflectir-se no mundo e nele se espalharem. É indizível o gozo e o fogo que eu senti.
Escreve Santa Teresa de Ávila

« Via um anjo ao pé de mim, para o lado esquerdo, em forma corporal, se o que não costumo ver senão por maravilha. Ainda que muitas vezes se me representam anjos, é sem os ver, senão como na visão passada, que disse antes. Nesta visão quis o Senhor que o visse assim: não era grande mas pequeno, formoso em extremo, o rosto tão incendido, que parecia dos anjos mais sublimes que parecem todos se abrasam. Devem ser os que chamam Querubins, que os nomes não mos dizem, mas bem vejo que no Céu há tanta diferença duns anjos a outros e destes outros a outros, que não o saberia dizer. Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da ponta de fer-ro, me parecia que tinha um pouco de fogo. Parecia-me meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar aqueles quei-xumes e tão excessiva a suavidade que me causava esta grandíssima dor, que não se pode desejar que se tire, nem a alma se contenta com menos de que com Deus. Não é dor corporal mas espiritual, embora o corpo não deixa de ter a sua parte, e até muita. É um requebro tão suave que têm entre si a alma e Deus, que suplico à Sua bondade o dê a gostar a quem pensar que minto ». 
Em seguida, a Alexandrina explica a materna intervenção de Nossa Senhora:

« Disse-me, do lado, a Mãezinha

― Minha filha, Minha filha, salva o mundo, salva os meus filhos, salva-os comigo, salva-os com Jesus. Coragem, muita coragem, Eu serei contigo! Já reflectiste que faço do teu quarto a Cova de Iria? Já reflectiste que, como em Fátima, aqui desço todos os meses, não falando nas vezes que, como hoje, venho a convite do Meu Filho? É para te dar conforto e encorajar. Recebe as minhas carícias ».
Depois da Mãe, eis que vem o Filho que, para estimular a sua querida esposa de Balasar, lhe apresenta a sua Cruz, não como um objecto de ignomínia, mas como um símbolo de amor.

« Apresentou-me Jesus uma cruz, pôs-me sobre ela; por trás Dele estava outra, era a de Jesus.

― Minha filha, a alma, que sofre por amor, goza na cruz. Aqui a tens; é tua no Céu, é tua na terra. Em tudo te asseme-lhas a Mim. A Minha acompanhou-me do nascimento ao Calvário, e aqui a tenho resplandecente no Céu. Recebe a gota do Meu divino Sangue. Recebe a vida, leva a vida, dá-a às almas. Não contes, filha querida, acudir-lhes aos corpos; o mundo não se regenera, não há emenda de vida, tem de ser punido, tem de cair sobre ele a justiça de Meu Pai. Mas pro-meto-te que a tua nobre missão será desempenhada com todo o brilho na terra e no Céu. Confia, confia; as almas por ti são salvas ».
Jesus propõe à Alexandrina de receber “a gota do Seu divino Sangue”. Efecti-vamente, desde há já largos meses, ela recebe, todas as sextas-feiras uma “transfusão” de Sangue divino, não só para alimento da sua alma, mas também para alimento do corpo, visto que desde há vários anos, de nada mais se ali-menta senão da Eucaristia. Esta operação divina é única na história da mística .

« Recebi de Jesus o Seu Sangue Divino ― explica ela ―, que caiu do Seu Coração para o meu ».
Mas ela ainda tem mais que explicar:

« Deixei de ver os Anjos, a Mãezinha, o Céu; ficou só Jesus. Disse-Lhe ainda com o coração a arder:

― Ó meu Jesus, eu não temo a cruz, temo a minha miséria. Com a Vossa graça divina suportarei todo o peso que me esmaga. O que eu não sei, meu Jesus, é como me hei-de tor-nar digna de Vós. Eu, Jesus, eu, meu amor, eu, a mais pobre e indigna das Vossas filhas temo e tremo ».
Alexandrina amava a Cruz porque nesta ela via Jesus, o seu tão Amado Jesus que por ela dera sua vida, mas não só por ela, como por nós todos. Este amor sem falhas, era nela um amor corajoso, um amor que não recua, que é capaz de tudo, até mesmo de heroísmo. É este amor invencível que leva a Bem-aventurada a exclamar: ― « Ó meu Jesus, eu não temo a cruz, temo a minha miséria ».

E é também porque ela teme a sua própria miséria que ela diz ainda:

«Eu, Jesus, eu, meu amor, eu, a mais pobre e indigna das Vossas filhas temo e tre-mo».

Esta humildade necessita de ser assegurada, de ser guiada, eis porque o Senhor vem ao socorro da sua amada:

― «Coragem, esposa amada! És pequenina para seres gran-de; sentes-te horrorosa para seres Formosíssima. Essa podridão é do mundo, não é tua. Coopera Comigo, Eu tornar-te-ei digna de Mim, farei que tenhas toda a graça e pureza, que de ti exijo. Vai contente e alegre, vai para a cruz».
Cooperar com Jesus na redenção dos seus irmão extraviados, foi sempre o voto fervoroso e corajoso da Alexandrina. Animada por saber que esta “podridão é do mundo, não é dela”, ela agradece e toma mesmo iniciativas ousadas: vencer o Coração de Jesus, para que Jesus possa vencer à Coração do Seu Eterno Pai e evitar assim que a divina Justiça caia sobre o mundo e sobre os pecadores que não arrepiam caminho.

― « Obrigada, meu bom Jesus; dizei por mim um outro obrigada à querida Mãezinha. Eu vou para a cruz, só por Vosso amor e por amor às almas. Mas vou ainda confiada que hei-de vencer o Vosso Divino Coração e Vós vencereis o Vosso Eterno Pai, para que o mundo seja poupado à Sua jus-tiça Divina. Ai, meu Deus, o tempo passa, foge e eu sem vir-tudes, sem amor. Que pobreza a minha! »
Santa Teresa de Ávila, depois de ter descrito o facto que acima transcrevemos, diz no mesmo Livro da sua Vida e no mesmo capítulo 29:

« Muitas vezes tenho pensado, espantada, na grande bonda-de de Deus e a minha alma tem-se regalado de ver a Sua grande magnificência e misericórdia. Seja bendito por tudo! Tenho visto claramente Ele não deixar sem paga, até mesmo nesta vida, nenhum desejo bom ».
A semelhança é ainda aqui evidente. Eis o que diz a Alexandrina ao terminar o seu diário de 13 de Junho de 1947:

« Quando recordo o tempo, que passei neste colóquio, sinto-me mais forte. Oh, como Jesus é bom! »
Quando a fonte é idêntica, mesmo se a água corre por orifícios diferentes, é sempre a mesma água que corre, a mesma água cristalina.

Em muitos outros êxtases da Bem-aventurada Alexandrina, podem encontrar-se estas semelhanças extraordinárias.

Será de admirar? Não, porque, como dissemos acima, a Fonte é a mesma. Não disse Jesus à Alexandrina: “Tu és doutora em ciências divinas”?

A única diferença que aqui podemos assinalar é que Santa Teresa de Ávila foi nomeada Doutor da Igreja universal, o que não é o caso, por enquanto da Bea-ta Alexandrina, mas que poderá vir a sê-lo, se tal for a Vontade do Senhor.

Afonso Rocha
 (Livro da Vida, cap. 29-13)

quinta-feira, 25 de março de 2010

UM MINUTO COM A BEATA ALEXANDRINA

Em que consiste?


A partir do 1º de Abril, em França, na Bélgica e na Holanda vários conventos que praticam a adoração eucarística, vão fazer um minuto suplementar de adoração, minuto durante ao qual vão unir-se espiritualmente às intenções da Beata Alexandrina ― guardiã dos Tabernáculos abandonados. Mas este minuto suplementar de adoração não será limitado aos monges e às freiras, visto que um grande número de leigos vai também participar e, por intermédio dos blogues e dos Sítios Internet que informarão regulamente sobre desta devoção particular, todos serão informados, de maneira que esta acção vá “até aos confins do mundo”

Este minuto suplementar, multiplicado por milhares de pessoas, poderá depois contabilizar-se em milhares de horas suplementares de adoração, o que naturalmente fará grande prazer à nossa querida Alexandrina.

Durante o mês de Julho ou Agosto — a data ainda não foi definitivamente fixada — vamos instalar em Paray le Monial (França), cidade onde Jesus apareceu a Santa Margarida Maria, um stand dedicado à Beata Alexandrina de Balasar. O nosso objectivo é de explicar os milhares de pessoas que ali se vão reunir quem foi a Alexandrina e qual foi a sua primeira missão.

Vamos igualmente distribuir uma carta — tipo carta bancária — contendo de um dos lados a imagem da Alexandrina e do outro lado uma pequena oração sobre um fundo eucarístico.

SITES :

http://alexdiffusion.free.fr/
http://alexandrina.balasar.free.fr/
http://alexandrinabalasar.free.fr/
http://nouvl.evangelisation.free.fr/
http://voiemystique.free.fr/
http://lieudepriere.free.fr/

BLOGS :

http://alexandrina-de-balasar.blogspot.com/
http://alex-balasar.blogspot.com/
http://mistica-e-misticos.blogspot.com/
http://nouvelle-evangelisation.blogspot.com/
http://voie-mystique.blogspot.com/
http://a-jesus-par-marie.blogspot.com/
http://a-jesus-por-maria.blogspot.com/

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

ENTRE NOITE E DIA - I

Alexandrina de Balasar

O sacerdote dominicano, Reginaldo Garrigou-Lagrange, bem conhecido dos estudiosos de ascética e mística, escreveu par os “Estudos Carmelitanos” de Outubro de 1932 — ano em que a Beata Alexandrina viveu as suas primeiras experiências místicas — um importante artigo intitulado: «A noite do espírito reparadora em São Paulo da Cruz». Ele aí traça de mão de mestre as etapas místicas do Santo fundador da Congregação dos Passionistas.
Logo no princípio do seu artigo, o famoso autor afirma:
«Certas vidas de grandes servos de Deus particularmente dedicados à reparação, ou à imolação para a salvação das almas ou ao apostolado pelo sofrimento interior, fazem pensar contudo à uma prolongação da noite do espírito mesmo após a entrada na união transformante. Mas então esta prova não seria mais sobretudo “purificadora”, seria sobretudo “reparadora”.»
Esta “sentença” aplica-se perfeitamente à vida e à missão da Beata Alexandrina de Balasar, cuja vida, mesmo depois da vivência da tão difícil e torturante noite escura do espírito, continuou a viver esta, já não sob a forma “purificadora”, mas sob a forma “reparadora”: sofrer a “imolação para a salvação das almas”.
A noite escura do espírito que a Alexandrina já vivera, «é um purgatório antes da morte, mas um purgatório onde a alma merece e onde o seu amor cresce muito», explica ainda, de maneira sintética, o mesmo conceituado autor.
Mais ainda: «esta obscuridade e as angústias que se provam fazem lugar à luz superior e a alegria da união transformante, prelúdio imediato da vida do céu».
E agora, quase de maneira poética o mesmo autor esclarece ainda: « O inverno da noite do espírito parece seguido de uma primavera e um verão perpétuo, após o qual não haveria mais Outono ».
E, como para assentar as afirmações que avança, ele faz depois apelo ao mestre por excelência da teologia mística: São João da Cruz:
«Tal é a impressão que dá a leitura da “Noite Escura” e “Viva Chama de Amor”. Dir-se-ia que a noite do espírito é para as almas avançadas apenas um túnel a atravessar antes de entrar na união transformante e que a alma não terá seguidamente mais a atravessá-lo de novo».
Mas, na vida espiritual da Beata Alexandrina, não é bem assim: ou seja que o “túnel” parece não ter fim ou então ela teve de atravessar diversos desses “túneis”, alguns mais longos do que outros, mas todos destinados, como nos vai explicar o Padre Garrigou-Lagrange:
«Certas vidas de grandes servos de Deus particularmente dedicados à reparação, ou à imolação para a salvação das almas ou ao apostolado pelo sofrimento interior, fazem pensar contudo à uma prolongação da noite do espírito mesmo após a entrada na união transformante. Mas então esta prova não seria mais sobretudo purificadora, seria sobretudo reparadora.»
Aqui está a explicação adequada ao caso da Beata Alexandrina: o seu “sofrimento interior” é pois “dedicado à salvação das almas”, e por isso mesmo um prolongamento da “noite do espírito”, mas agora não “purificador” mas bem “reparador”.
Veja-se o que ela nos diz no seu “Diário”, “Sentimentos da alma” de 6 de Março de 1942:
«As negras trevas da noite não podem jamais terminar para mim; não vejo o caminho, não posso seguir nem voltar para trás; não tenho guia, não tenho vida. Sinto o coração e a alma a despedaçarem-se em bocadinhos».
Um mês mais tarde, de novo ela se queixa:
«Sinto a alma como se fosse um corpo preso de mãos e pés, mas toda escuridão e onde não penetra a mais pequenina luz e onde não pode entrar a mais pequenina ponta de ar. Abandonou-me o Céu e a terra». (Sentimentos da alma; 3 de Abril de 1942).

Afonso Rocha

SEGUE

quinta-feira, 18 de junho de 2009

TUDO BAIXOU...


Prosseguimos com alguns outros trechos da Beata Alexandrina, porque estamos seguros que foi uma das maiores ― senão a maior ― místicas do século XX.
Depois de nos ter explicado sucintamente a diferença entre morte natural e morte mística, ela aqui nos conta o estado da sua alma e demonstra e interdependência que existe entre aquelas duas mortes e a vida interior da alma que toda se entrega ao Senhor. “Já não vivo, só vive a minha dor amada, só vive o meu inexplicável martírio”, explica ela com simplicidade. Sabemos que toda a sua vida foi um “martírio de amor”, uma doação sem falhas um oferecimento constante pelas almas dos pecadores. Este estado de alma-vítima, escondido “por detrás de um sorriso”, foi uma constante na vida da Alexandrina: desde a sua juventude até ao seu último suspiro em 13 de Outubro de 1955, “no calvário de Balasar”.

*****

« Nova transformação na minha alma. Morreu por completo aquele pequenino sopro de vida. Já não sinto aquela respiração que de longe a longe sentira. Vive em mim a dor e essa de toda a qualidade e espécie. Morri, morri para o mundo e para as criaturas. Tudo baixou ao túmulo para ficar para sempre sepultado. Meu Deus, que horror! Já não vivo, só vive a minha dor amada, só vive o meu inexplicável martírio. Poderá ele, sem a minha vida, dar a vida às almas? Poderei ser ainda útil à humanidade? Ó Jesus, ó Jesus, posso assim amar-Vos e consolar o Vosso santíssimo Coração? Pobre de mim! Depois do ódio e do abandono, depois do esquecimento, do desprezo, baixei à minha sepultura, já vivo na eternidade e sem que me désseis o meu Paizinho e sem ter de novo aqui a Santa Missa. Nunca mais, meu Jesus; nunca mais posso ter alegria, a não ser com os olhos em Vós. Podem de novo darem-me tudo o que me roubaram, sinto que para mim tudo é morte e que já é tarde para me ser restituído aquilo que eu mais amava e estimava depois de Vós, ó meu Jesus. Ai a Santa Missa! O meu director espiritual! E tudo mais, meu Jesus, tudo mais! Que horror! Como resistir a tanto? Não fui eu, meu Amado, fostes Vós em mim, foi o Vosso Amor. Obrigada, meu Jesus! Continuai a dispensar-me, dai-me força.
A minha eternidade não tem luz : é uma eternidade que não Vos ama, que não Vos louva, que não Vos vê, que não Vos goza. Tremenda eternidade. Não ver a Jesus é uma eternidade de morte. Só a dor triunfa sobre a morte. É o que vivo na eternidade que sinto. Seja qual for o estado da minha alma, Jesus, apressai-Vos, cumpri as Vossas santas promessas. Eu espero, eu espero, confiada por Vosso amor. Dai, Jesus, dai a vida às almas com a minha morte, com a minha eternidade. Dai-lhes a Vossa eternidade ; dai-lhes o Céu, o Céu, ó Jesus. »

Alexandrina de Balasar: “Sentimentos da alma”; 13 de Maio de 1944.